Pedro II faz ato contra arbitrariedades de deputados que invadiram escola

Com o apoio do Sindscope (Sindicato dos Servidores do Colégio Pedro II), da ADCPII (Associação dos Docentes do Colégio Pedro II), do Grêmio São Cristóvão, Coletivo CPII, mães, pais e demais responsáveis de alunos, foi realizado na sexta feira (25/10), das 12 às 13 horas, um ato contra a forma arbitrária que dois deputados do PSL invadiram o Colégio Pedro II, Campus São Cristóvão, no dia 11 de outubro. Alegando uma suposta vistoria sem um comunicado anterior à instituição, o Deputado Federal Daniel Silveira e o Deputado Estadual Rodrigo Amorim, que ficaram conhecido por terem destruído a placa que fazia homenagem à Vereadora assassinada Marielle Franco, foram o estopim dessa arbitrariedade

Apesar da hora de almoço vários estudantes, pais , professores e servidores compareceram ao ato
O Deputado Estadual Rodrigo Amorim (Esq.) e o Deputado Federal Daniel Silveira são cercados e vaiados por estudantes na saída do colégio Pedro II no dia 11 de outubro Foto-Reprodução

ENTENDA O CASO

Segundo foi noticiado nas mais variadas mídias, no dia 11 de outubro, o Deputado Estadual Rodrigo Amorim e o Deputado Federal Daniel Silveira, literalmente invadiram o Campos do Colégio Pedro II por volta das 10 horas. Ao chegarem à portaria, segundo relatos de alunos e servidores eles, inicialmente, se identificaram como policiais. Como a direção achou estranha essa atitude, o reitor da unidade Oscar Halac tentou impedir a entrada deles por não terem autorização e chamou a Polícia Federal. Imediatamente eles mudaram a postura e se apresentaram como deputados. O Deputado Estadual Rodrigo Amorim é advogado e o Deputado Federal Daniel Silveira é Soldado da Policial Militar. Ambos alegarem estar fazendo uma inspeção para a “Cruzada pela Educação”, que é um projeto dos dois parlamentares. Após o episódio Halac soltou a seguinte nota lamentado o episódio:

Vereadores Reimont (filmando) e Renato Cinco (camisa lilás) junto aos estudantes e demais participantes do ato

O episódio é lamentável. Os deputados, um federal, outro estadual, se basearam em fato não verídico de que poderiam entrar a hora que quisessem numa unidade federal. Trata-se de uma escola com crianças, e eles entraram filmando e procurando algo que pudesse comprometer ou contribuir para a propaganda eleitoral deles. Evidentemente, nada disso foi encontrado, apesar de ser uma escola que preza pelo pensamento crítico e pela livre expressão (…) atrapalhou a aula, foi uma situação constrangedora, eles filmando, se portando como se fossem policiais“, disse o Reitor Oscar Halac.

Dona Vera (Associação dos Docentes) discurso no evento

O ATO

Apesar do horário ruim (das 12 às 13h), muitos alunos, pais, representantes sindicais, representantes de outras escolas federais marcaram presença no ato que pedia respeitos ao espaço escolar e às liberdades democráticas. Todos foram unânimes em repudiar a forma como os deputados do PSL literalmente invadiram o colégio, segundo eles, em busca de subsídios para a destinação de emendas e de elementos com conotações políticas.

Alunos de outras unidades vieram ao ato prestar solidariedade aos colegas de São Cristóvão

Vários parlamentares também compareceram apenas como apoio aos organizadores e à instituição e, por isso, não se manifestaram. Entre eles o Deputado Federal Marcelo Freixo, (PSOL), o Vereador Tarcísio Motta (PSOL); Vereador Renato Cinco (PSOL), Vereador Reimont (PT) e o Vereador Babá (PSOL).

O Deputado Federal Marcelo Freixo marcou presença no evento
O Vereador Tarcísio Motta, que é professor licenciado do Pedro II tem dois filhos estudando no colégio
Vereador Reimont (esquerda) e Vereador Renato Cinco também presentes na manifestação
Vereador Babá (de braços cruzados) ao lado de servidoras do Pedro II

Segundo o folheto distribuído no ato, “o desejo dos invasores autoritários era impedir a fala e a expressão da diversidade. Atitude que lembra as ditaduras e regimes fascistas e que não cabem em um ambiente democrático e de pluralidade de ideias. Denunciaram como “políticos” conteúdos curriculares previstos na legislação oficial, evidenciando a intenção de impor sua própria visão de mundo e de impor a censura à escola no cumprimento de suas finalidades: divulgar o pensamento, a arte e o saber que marcaram a história da humanidade”.

Folheto de divulgação do ato

Um dos alunos presentes à manifestação foi o Matheus, do 1º ano do ensino médio. Ele acha que a atitude dos parlamentares foi um desrespeito muito grande aos alunos. “Eles acham que a gente vai ficar com medo de gente grande, com medo de títulos. Eles acham que tem poder porque hoje estão numa cadeira. A gente é que está com o poder aqui e eles estão começando a perceber isso. A gente está na rua hoje pra mostrar que não temos medo. Foi um desrespeito muito grande e ninguém vai aceitar. Eles estão manipulando as coisas.”, disse o aluno.

Matheus, (segurando o cartaz) achou um desrespeito a atitude dos parlamentares

Outro presente, o aluno Kauan Pereira, também do primeiro ano do ensino médio, disse que o evento é um ato em defesa de escolas e institutos federais, como o Pedro II e o Colégio Nilton Braga, que passa por uma tentativa de estadualização. Em relação a invasão dos deputados, Kauan disse que ficou surpreso. “Nós nem imaginávamos que iríamos receber essa visita. Estava acontecendo um evento temático do terceiro ano do ensino médio, sobre o dia das crianças, e recebemos esse “belo” presente. Quando chegaram eles deram uma identidade falsa, não se identificaram como deputados, mas como policiais, quando apenas o Daniel Silveira é policial licenciado. Isso caracteriza uma ilegalidade, é imoral”, informou o aluno.

A vereadora assassinada Marielle Franco virou símbolo da resistência estudantil

Jurema Gomes da Silva, de 81 anos, ex-aluna da primeira turma da Unidade Humaitá e professora aposentada do Pedro II, também estava no evento, apesar dos problemas nas pernas. Com mais de 30 anos dando aulas no PII e aposentada há 11, a ex-professora ainda encontra forças para lutar em prol do colégio. “Ainda tenho fôlego e garra com minhas três pernas (a bengala é a minha terceira perna, brincou a aposentada), porque temos que resistir. A gente deixa espaço para as pessoas mais novas que estão chegando. Lutamos muito na minha época, mas a luta não era assim. Fechamos muitas vezes a Rua Marechal Floriano e esses alunos não deixam que acabem com a escola. Temos que resistir mesmo, não só os alunos do Pedro II mas muitas outras escolas também. O Sepe está aí na luta e é por isso que eles conseguem manter a escola pública, mesmo que não seja aquela que a gente quer”, disse a aposentada.

Dona Jurema, aos 81 anos, professora aposentada do Pedro II, foi ajudar os alunos e a instituição no ato pedindo respeito ao espaço escolar e às liberdades democráticas

A senhora Vera, da Comissão de pais e responsáveis, inicia sua fala dando os parabéns aos estudantes pela resistência “aos fascistas” que invadiram a escola. “Eles têm inveja porque nós somos competentes. O colégio Pedro II no Enem de 2018 ultrapassou a média de todas as escolas, entre as públicas e particulares no Rio de Janeiro. Só que como eles não podem com a gente, eles querem militarizar as escolas. As escolas que estão sendo militarizadas no Brasil são bem diferentes do Colégio Militar. O colégio militarizado é para tiro, porrada e bomba contra os alunos da rede pública. Eles estão ameaçando pais, agredindo alunos, agredindo professores, e as pessoas não estão sabendo disso. Tem muita gente pensando que militarizar as escolas seria ótimo, mas será péssimo. Não será a mesma coisa que o Colégio Militar, porque o que eles querem é colocar PM dentro dos colégios e esculachar estudante, professores, pais e mães”, disse a senhora Vera.

Muitos alunos ficaram na parte interna do colégio assistindo a manifestação

O evento acabou sem nenhum problema e foi acompanhado por cinco carros da PM com vários policiais armados, mas não interferiram em nenhum momento no ato.

Policiais militares acompanharam a manifestação que transcorreu pacificamente
Ao todo foram quatro carros da PM em um evento com aproximadamente 500 pessoas

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